A era dos desafios.

Era uma vez um tempo em que desafio era dar a volta no quarteirão de bicicleta sem pôr o pé no chão. Ou fazer três gols no campinho de terra. Ou ainda, juntar coragem para bater na porta da vizinha e sair correndo. O prêmio? Risadas, histórias para contar, talvez um arranhão no joelho,  mas nada além da vida em seu estado mais puro.
Hoje, a palavra “desafio” ganhou outra textura. Ela não mora mais nas ruas, nas praças ou nos campinhos de futebol. Ela mora nas telas. E cobra um preço.
Por que será que precisamos tanto dos desafios agora? Seria falta de emoção num mundo saturado de estímulos? Falta de dinheiro para experiências mais profundas? Ou será apenas essa nova ordem invisível da internet, onde quem não aparece, desaparece?
Os desafios de hoje parecem nascer de uma fome insaciável de ser visto. De vencer um algoritmo. De ganhar, ainda que por alguns segundos, a coroa de rei ou rainha de um mundo que dura o tempo de um scroll. Saltar de prédios, comer o que não se deve, se machucar para provar coragem. Há algo de doído nessa necessidade.
Antes, a interação era física, suada, cheia de risos, brigas e reconciliações verdadeiras. Agora, ela é mediada por câmeras, likes e comentários que evaporam no dia seguinte.
E o custo? Ah, o custo é alto. Não só nos corpos que caem, não só nas famílias que choram. O custo é na alma, nessa ansiedade coletiva que se alastra como fogo em mato seco. Na solidão que se mascara de popularidade. Na busca desesperada por aceitação num palco onde o espetáculo nunca termina.
A febre dos desafios nas redes sociais é o sintoma de um tempo que trocou a aventura real pela performance vazia. E às vezes, o que parecia uma simples brincadeira acaba trazendo mais do que tristeza: traz a morte.
Talvez esteja na hora de redescobrirmos o prazer do desafio real. A alegria de aprender um instrumento, de correr uma maratona, de ouvir “eu te amo” de verdade, sem precisar postar.
Talvez esteja na hora de lembrarmos que nem todo desafio vale a pena. E que a vida, mesmo sem filtros, já é desafiadora o suficiente para ser vivida.
Lúcio Zahoul. Abril de 2026

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