A arte e a memória caminham juntas quando a fotografia se transforma em instrumento de reflexão social. É justamente essa proposta que chega ao público paulistano com a exposição “Ronda: A forma circular da memória”, que será inaugurada no dia 12 de março, às 19h, no Instituto Cervantes de São Paulo.

A mostra reúne um olhar sensível e documental sobre a luta feminista na Argentina ao longo da última década, estabelecendo um diálogo simbólico com um dos movimentos mais emblemáticos da história latino-americana: a mobilização das Madres de Plaza de Mayo, grupo que se tornou símbolo mundial da resistência durante a ditadura militar argentina.

Com curadoria das fotógrafas Soledad Robles e Natalia Terry, a exposição apresenta 20 fotografias selecionadas a partir de um extenso arquivo construído ao longo de dez anos de acompanhamento de marchas e mobilizações feministas. Entre os registros estão manifestações marcantes como o 8M – Dia Internacional das Mulheres e o Dia da Memória, celebrado em 24 de março, eventos que mobilizam milhares de pessoas nas cidades de Buenos Aires e La Plata.

Mais do que retratar manifestações, a exposição propõe uma reflexão profunda sobre como gestos, símbolos e formas de resistência se repetem e se transformam ao longo do tempo, criando uma memória coletiva que atravessa gerações. A ideia da “ronda” — o movimento circular das marchas, aparece como metáfora visual dessa continuidade histórica.

A narrativa visual da mostra se estrutura em dois eixos principais. O primeiro reúne registros documentais de mulheres e meninas em marcha, captando expressões, gestos e olhares que revelam transformações sociais ao longo dos anos. O segundo eixo apresenta imagens de ações performáticas que evocam diretamente o legado das Madres de Plaza de Mayo, reforçando a dimensão simbólica da ocupação do espaço público como forma de resistência.

Além da exposição, o Instituto Cervantes também promove um momento de diálogo com o público. No dia 13 de março, às 17h, acontece o LAB Cultural IC “Dando Vueltas con Soledad y Natalia”, um encontro com as artistas no qual elas compartilham reflexões sobre o processo criativo, o contexto das fotografias e os caminhos que levaram à construção desse arquivo visual que documenta uma década de mobilização social.

Ao trazer para São Paulo essa reflexão sobre memória, arte e ativismo, a exposição reafirma o papel da fotografia como ferramenta de registro histórico e de construção de narrativas que continuam a ecoar no presente. “Ronda: A forma circular da memória” convida o público a olhar para o passado e o presente de forma sensível, entendendo que as lutas sociais também se constroem através da imagem, do gesto e da permanência da memória coletiva.

Lúcio Zahoul. Abril de 2026

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