A indústria da moda vive uma de suas fases mais interessantes, marcada por trocas de comando em grandes maisons e por um reposicionamento estratégico do luxo. Nesse cenário, a chegada de Mathieu Blazy à direção criativa da Chanel projeta um novo olhar para uma das marcas mais simbólicas do mundo: mais leve, menos cerimoniosa e alinhada ao estilo de vida contemporâneo.

Blazy, francês-belga formado pela La Cambre e com passagens por Raf Simons, Maison Margiela, Céline, Calvin Klein e, mais recentemente, Bottega Veneta, construiu uma reputação singular: a de transformar a sofisticação em algo natural e silencioso. Em Milão, foi responsável por algumas das coleções mais elogiadas dos últimos anos, especialmente pela capacidade de elevar o cotidiano, como transformar couro em “jeans” ou reinterpretar bolsas e tramas tradicionais com rigor técnico e frescor.

Na Chanel, esse raciocínio parece se encaixar perfeitamente. A maison criada por Coco Chanel sempre avançou a partir de um mesmo princípio: aproximar o luxo da vida real. Se, nos anos 20, Coco libertou o corpo feminino com o jersey e o tweed, hoje Blazy busca libertar o luxo de uma formalidade que já não dialoga com o mundo atual.

As primeiras coleções sob sua liderança apontam justamente nessa direção. Elementos como o jeans (reinterpretado em materiais nobres), a regata branca e a alfaiataria desconstruída reaparecem com técnicas de alta-costura, bordados minuciosos e uma leveza que sugere movimento. Há feminilidade, há rigor artesanal, mas existe, sobretudo, uma vontade de vestir a mulher real, aquela que transita entre compromissos, viagens, eventos e um cotidiano globalizado.

Essa transição se soma ao que o mercado vem chamando de “dança das cadeiras” na moda francesa. Nos últimos anos, nomes importantes deixaram cargos históricos e outros assumiram casas centenárias, num reposicionamento que envolve Balenciaga, Givenchy, Dior Men e Jean Paul Gaultier. O objetivo é claro: renovar a linguagem visual das marcas sem perder o patrimônio cultural que elas representam.

No caso da Chanel, a escolha de Blazy representa uma aposta na sofisticação descomplicada, no luxo discreto e no diálogo com uma geração que não enxerga mais o glamour apenas sobre tapetes vermelhos. O luxo de 2026 se equilibra entre técnica e desejo, entre artesanato e funcionalidade  e esse parece ser justamente o terreno onde Mathieu Blazy se sente mais confortável.

Com esse movimento, a alta-costura francesa gira uma nova chave. Mais do que grandes espetáculos, busca-se pertinência cultural, propósito estético e longevidade criativa. Blazy, com seu histórico consolidado e sua sensibilidade moderna, surge como um agente dessa transformação, reposicionando a Chanel para o presente sem trair a herança que a construiu.

Uma nova era se inicia em Paris, mais leve, mais informal, e ainda assim profundamente Chanel.

Lúcio Zahoul. Abril de 2026

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