Era para ser apenas uma distração. Um jeito de se atualizar, ver as fotos dos netos, acompanhar as notícias do dia. Mas, sem que percebessem, os idosos foram engolidos pela tela azul.

No começo, era até bonitinho. A vovó descobrindo os emojis, o vovô se divertindo com vídeos engraçados de cachorros. Mas logo vieram os grupos de mensagens com fake news sobre remédios milagrosos, as correntes de oração obrigatórias, os testes de “qual santo te protege?”. E depois, os vídeos sem fim. Um rolar de tela eterno, de manhã até a noite.

Os encontros de família mudaram. Se antes a reclamação era que os netos não largavam o celular, agora eram os mais velhos que mal piscavam, mergulhados no mundo digital. O café esfriava, a novela ficava no mudo, e a atenção deles era sugada para longe, para aquele universo paralelo onde sempre há uma notificação nova.

A insônia veio, acompanhada de olhos cansados e dores no pescoço. O estresse aumentou, a ansiedade se instalou. Eles passaram a se preocupar demais com teorias da conspiração, com o que o tal “doutor do YouTube” dizia, com a quantidade de curtidas que a foto do cachorro recebeu. Ficaram mais isolados, menos pacientes, mais confusos. A depressão, que antes parecia coisa da juventude moderna, agora batia à porta deles.

E então veio o alerta do médico: “Dona Lúcia, seu coração está acelerado, sua pressão subiu. O senhor João, seu sono não é mais o mesmo, sua memória anda falhando. Já pensaram em diminuir o tempo de tela?”

Eles riram. “O celular é a nossa companhia”, disseram. Mas será que era mesmo? Ou será que estavam presos em uma armadilha brilhante, que prometia entretenimento, mas roubava o silêncio, a conversa, a paz?

O tempo passou, e alguns começaram a perceber. Guardaram o celular durante o almoço, voltaram a caminhar no parque, redescobriram o prazer de uma conversa sem interrupções. Mas outros seguiram rolando a tela, clicando, compartilhando. Perdidos na imensidão do digital, esqueceram do mundo ao redor.

Os avós, antes guardiões da calma e da paciência, agora vivem acelerados, como se cada notificação fosse uma urgência. E os netos, ironicamente, esperam que eles larguem o celular, só por um instante, para contar como foi o dia.

Lúcio Zahoul. Abril de 2026

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