O Brasil gosta de se enxergar como uma nação jovem, diversa e em desenvolvimento. Mas existe um dado que insiste em nos puxar para trás e ele não cabe em discursos otimistas nem em campanhas institucionais. Meninas brasileiras continuam se casando antes da adolescência terminar. Muitas antes mesmo de entenderem o que significa escolher.

Embora a lei seja clara, a realidade é brutal. Desde 2019, o casamento antes dos 16 anos é proibido em qualquer circunstância, e entre 16 e 18 só pode ocorrer com autorização dos pais, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente. Ainda assim, o casamento infantil persiste, formalmente ou, mais frequentemente, por meio de uniões informais socialmente aceitas, mas juridicamente invisíveis.

O resultado é um paradoxo: o Brasil tem lei, mas não tem proteção efetiva.

Um problema que tem rosto, gênero e território.

Os números revelam um padrão impossível de ignorar. Cerca de 90% das pessoas que se casam na infância ou adolescência são meninas. A maioria vive em regiões historicamente marcadas por desigualdade social, Norte e Nordeste, principalmente, mas o fenômeno também aparece no Sudeste, longe de ser um problema “regional”.

Não se trata de tradição cultural nem de escolha individual. Trata-se de pobreza estrutural, desigualdade de gênero e ausência do Estado. Onde faltam escola de qualidade, renda, perspectivas e políticas públicas, o casamento infantil surge como falsa solução, uma tentativa de “organizar” a vida cedo demais.

Educação interrompida, futuro encurtado.

Casar cedo quase sempre significa abandonar a escola. A menina deixa de estudar, perde autonomia, depende financeiramente do parceiro e entra em um ciclo que se repete geração após geração. A gravidez precoce, comum nesses contextos, intensifica o problema e transforma adolescentes em mães antes que tenham sido, de fato, meninas.

Não é coincidência que países e regiões com altos índices de casamento infantil também apresentem baixo desempenho educacional e menor desenvolvimento econômico. Educação e casamento infantil são forças opostas: quando uma avança, o outro recua.

Por isso, organismos internacionais como o UNICEF tratam o casamento infantil como violação de direitos humanos, e não como questão privada ou familiar.

Violência silenciosa, aceita e normalizada.

Outro aspecto raramente tratado com a seriedade necessária é a violência. Meninas casadas muito jovens, muitas vezes com homens mais velhos, estão mais expostas a abusos físicos, psicológicos e sexuais. O isolamento social e a dependência emocional dificultam denúncias e rompimentos.

É uma violência que não grita. Ela se instala, se normaliza e se perpetua.

O que o casamento infantil diz sobre o país.

O casamento infantil é um espelho incômodo. Ele revela um Brasil que ainda falha em proteger suas crianças, que tolera desigualdades profundas e que naturaliza o encurtamento da infância feminina.

Nenhum país que se pretenda desenvolvido pode aceitar que meninas troquem a sala de aula por responsabilidades adultas impostas. Nenhuma nação que valorize o futuro pode fechar os olhos para um fenômeno que compromete gerações inteiras.

Não é só uma questão legal. É um projeto de país.

Combater o casamento infantil exige mais do que leis no papel. Exige educação pública forte, políticas de combate à pobreza, proteção social às famílias e, principalmente, valorização das meninas como sujeitos de direito, não como destino pré-definido.

Enquanto uma menina for forçada, direta ou indiretamente a casar antes de crescer, o Brasil continuará devendo a si mesmo.

Falar sobre casamento infantil não é desconfortável.
Desconfortável é fingir que ele não existe.

E silenciar, nesse caso, também é escolher um lado.

Lúcio Zahoul. Abril de 2026

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