Existe hoje uma disputa silenciosa, porém barulhenta, pelo mesmo troféu invisível: o público premium, VIP, classe A. No Rio de Janeiro, a Marquês de Sapucaí se transformou em um tabuleiro de xadrez onde camarotes competem centímetro a centímetro por atenção, influência e status. Atrações internacionais, DJs importados, menus assinados, ativações cenográficas, listas fechadas, pulseiras, áreas secretas. Tudo grita exclusividade. Tudo tenta ser maior, mais caro, mais desejado.

É o oceano vermelho em sua forma mais literal: muitos players, o mesmo público, a mesma vitrine, a mesma noite, o mesmo desfile. Um canibalismo elegante, mas ainda assim canibalismo. A experiência, por vezes, se distancia da essência. O samba vira pano de fundo. A avenida, cenário. A festa popular, aquela que nasceu na rua, no suor, no sorriso espontâneo, acaba soterrada por camadas de branding, ego e competição.

E aí, curiosamente, o contraponto não está em outro camarote da Sapucaí. Está a 430 quilômetros dali.

Enquanto o Rio briga, São Paulo surfa.

Há 25 anos, o Camarote Bar Brahma navega sozinho no que o marketing chamaria de oceano azul. Não porque seja pequeno, longe disso, mas porque escolheu outro jogo. Outra lógica. Outro tempo. Em vez da disputa frenética por atenção, construiu pertencimento. Em vez de prometer excessos, entregou constância. Em vez de importar o Carnaval, ajudou a formar o Carnaval paulistano.

Ali, o VIP não é um personagem deslocado da festa. Ele faz parte dela. O lifestyle não se impõe; ele flui. Gente bonita, gente interessante, gente que entende que exclusividade não está no isolamento, mas na experiência bem resolvida. Música popular brasileira, encontros verdadeiros, marcas que conversam com o público sem atropelar a cultura. Um entretenimento saudável, maduro, urbano, com a cara de São Paulo.

O paradoxo é fascinante:
No Rio, onde o Carnaval nasceu para o mundo, ele hoje disputa atenção consigo mesmo.
Em São Paulo, onde por muito tempo se dizia que “não havia Carnaval”, ele encontrou identidade, público e propósito.

Talvez o grande erro do oceano vermelho seja esquecer que Carnaval não é sobre vencer o outro. É sobre pertencer. Sobre celebrar. Sobre misturar. Sobre deixar que a rua entre, mesmo quando o ingresso é caro.

No fim das contas, o luxo verdadeiro, esse que o público premium realmente reconhece, não está na ostentação da experiência, mas na verdade dela.

E enquanto uns brigam para ver quem grita mais alto na Sapucaí, outros seguem dançando, há décadas, ao som certo, na avenida certa, com o público certo.

Sem guerra.
Sem pressa.

E, principalmente, sem perder a alma da festa.

Texto: revista lounge*

Lúcio Zahoul. Abril de 2026

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