O diploma perdeu relevância, ou foi o Brasil que perdeu o rumo da educação?
A declaração do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, “o diploma cada vez tem menos relevância”, feita a apenas 48 horas do ENEM, provocou um abalo sísmico no debate sobre educação e mercado de trabalho no Brasil. Mas, antes de aceitar a frase como verdade absoluta, vale perguntar: é o diploma que perdeu valor ou foi o sistema educacional que deixou de entregar o que promete?
Nos últimos anos, o país vive uma contradição inquietante. Nunca tivemos tantas universidades, tantos cursos e tantas vagas. Mas nunca se discutiu tanto a sensação de que a formação superior não prepara, não transforma e não projeta carreiras como deveria. Enquanto isso, o mercado busca habilidades reais, comunicação, pensamento crítico, domínio da língua portuguesa, capacidade de resolver problemas complexos e muitas vezes não encontra.
A fala do governador toca num ponto sensível: o mercado, de fato, está menos interessado na moldura do diploma e mais nas competências visíveis no dia a dia. Mas talvez o problema seja anterior. Talvez a relevância do diploma tenha sido corroída por conteúdos fracos, didáticas ultrapassadas e instituições que formam pouco e certificam muito. Cursos que não dialogam com a realidade, currículos defasados e ausência de práticas concretas criam uma geração que chega ao mercado com título, mas sem preparo.
E essa falha não começa na universidade. Ela nasce na educação de base na escola que não estimula curiosidade, na família que perdeu o hábito de disciplinar, estruturar e acompanhar, na sociedade que substituiu profundidade por velocidade. As novas gerações, criadas num mundo de estímulos instantâneos, aprendem a descartar tudo com rapidez: relacionamentos, projetos, rotinas e, por consequência, o próprio estudo. Tudo parece volátil, raso, efêmero. O difícil ficou “chato”. O demorado ficou “desmotivador”. O conhecimento virou “cansativo”.
O resultado é uma equação perigosa:
menos base + menos disciplina + menos profundidade = diploma que pesa menos.
Mas o ponto crucial permanece: conhecimento nunca perde valor. Estudo nunca é irrelevante. São essas ferramentas — conhecimento, método, profundidade, que diferenciam as pessoas, que posicionam profissional e socialmente, que constroem trajetórias sólidas num mundo competitivo e desigual.
O diploma pode até ter perdido parte do brilho. O mundo mudou, o mercado mudou, as exigências mudaram. Mas o saber não mudou de importância e nunca mudará. O que muda é a forma como o país trata a educação, desde o ensino infantil até a universidade. O que muda é o quanto o Brasil exige de si mesmo.
Talvez a frase do governador não seja um ataque ao diploma, mas um diagnóstico: o país precisa reconstruir a relevância da sua própria educação.
E isso começa inevitavelmente pela coragem de admitir que estamos ensinando menos do que prometemos e cobrando menos do que deveríamos.
A pergunta final não é se o diploma vale menos.
A pergunta é: o que fizemos para que ele deixasse de valer?
Por: lounge*


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