O Morango do Amor e a dieta de conteúdo das redes.

De tempos em tempos, uma nova febre toma conta das redes sociais. Já tivemos a onda dos filtros que afinam rostos, das danças coreografadas, dos desafios duvidosos, dos cachorros que falam, dos cortes de cabelo em casa e, agora, chegamos ao “morango do amor”. Ele está em todo lugar, no feed, no story, no Reels. Vermelho, brilhante, provocante. Uma fruta banhada em caramelo que, curiosamente, se tornou símbolo de tudo o que buscamos online: doçura, nostalgia e zero profundidade.

Mas não se engane. O morango do amor não alimenta. Ele engana a fome com um açúcar que gruda nos dedos e no algoritmo. É bonitinho, fotogênico e, às vezes, até irresistível, mas, convenhamos, não sustenta. E é justamente nessa lógica que vivem as redes sociais: muito brilho, pouca substância.

Estamos imersos em um universo onde tudo precisa ser leve, “good vibes”, comestível em um scroll. Vídeos de cinco segundos, legendas com emojis e frases prontas como “seja luz”, “gratidão” e “acordei com essa vibe” substituíram reflexões, ideias provocadoras e conversas reais. Como se pensar desse trabalho demais, e o importante fosse parecer bem,  ou, melhor, parecer saboroso.

Enquanto isso, o conteúdo inteligente anda de mãos dadas com a timidez. Fica escondido em perfis que o algoritmo esqueceu. Afinal, uma crônica, um dado relevante, uma discussão sobre comportamento ou uma ideia que nos tira do lugar comum não é tão “engajável” quanto uma dancinha com legenda: “quem lembra disso?”. A cultura do fast content fez com que até nossas emoções fossem embaladas a vácuo, vendidas como morango do amor: tudo igual, açucarado, superficial.

E não há problema em gostar de coisas leves, o problema é só haver isso. A leveza é necessária, mas também é preciso mastigar ideias que nos desafiem, que causem aquele incômodo bom. Como um morango in natura: azedinho, real, vivo.

Talvez estejamos precisando de uma nova febre: a da curiosidade. Uma onde a viralização venha da inteligência, do humor refinado, da troca que expande. Onde um post seja mais do que um truque de edição. Onde o caramelo derreta, e a gente descubra que, por baixo do verniz, ainda dá tempo de morder algo verdadeiro.

Enquanto isso, seguimos entre um story e outro, lambendo os dedos e esperando, quem sabe, que da próxima vez o morango venha com um pouco mais de conteúdo.

Lúcio Zahoul. Abril de 2026

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