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Caio Gorentzvaig acusa Lula, grande empreiteiro e Judiciário

Entrevista

Caio Gorentzvaig acusa Lula, grande empreiteiro e Judiciário

Ele passou de um dos homens mais ricos e poderosos do Brasil a desafeto número um e declarado da família Odebrecht. Aos 62 anos, Caio Gorentzvaig trava uma batalha judicial para reaver a Petroquímica Triunfo, fundada por seu pai Boris Gorentzvaig no Rio Grande do Sul.

Em uma calorosa conversa com a reportagem da lounge*, Gorentzvaig não poupou nada e nem ninguém, fazendo denúncias que vão do Poder Judiciário à Presidência da República. Acompanhe os principais trechos.

Entenda o caso

No início de 2018, a Polícia Federal concluiu uma investigação que apontou que  o fortalecimento do setor petroquímico privado causou à Petrobras um prejuízo entre R$ 144 milhões e R$ 191 milhões na venda da Petroquímica Triunfo à Braskem, controlada pela Odebrecht.

A transação, realizada em 2009, foi um compromisso de governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De acordo com laudo dos peritos da PF, o valor de venda, de R$ 117 milhões, foi muito inferior às avaliações feitas por três grandes bancos do país.

Em delação premiada, Emílio Odebrecht afirmou que o fortalecimento da iniciativa privada no ramo petroquímico foi um compromisso de governo assumido por Lula ainda antes de seu primeiro mandato. Lula teria dito que quem mandava era ele e que o empresário não deveria ter dúvidas de que a petroquímica seria mantida em mãos privadas.

A investigação começou em 2014, devido à denúncia dos irmãos Caio e Auro Gorentzvaig, donos da Petroplastic, que tem 15% do capital da Triunfo. Para Caio, a venda da Triunfo teria sido um acerto entre o ex-presidente Lula e Emílio Odebrecht. 

Na gestão de Lula, a Odebrecht e a Petrobrás se associaram, formando a Braskem, monopolista no setor petroquímico e uma das cinco maiores do mundo no setor, com presença nos Estados Unidos, Alemanha e México.

Pelo o que conversamos antes de iniciar a entrevista, a briga do senhor com a família Odebrecth não é recente…

Não. Isso começou lá atrás. A gente já denunciava na década de 1970 a pretensão da família Odebrecht de ser a única dona da indústria petroquímica brasileira. Mas eles nunca conseguiram porque o General Geisel, com a lei que foi criada para a implantação da indústria petroquímica, não permitia. A questão do monopólio não poderia acontecer. Essa empresa jamais poderia ser desnacionalizada. Inclusive, nesse governo do Bolsonaro, com tantos militares, muito mais jovens do que o Geisel, eles conhecem a lei e tem esse ministro da Economia, o Paulo Guedes, ele está num discurso de entreguismo, de entregar tudo, vender tudo, enfim…

E o que o senhor acha de “vender tudo”?

Eu não sei quem é o Paulo Guedes, tenho informações muito superficiais de que ele é um ex-BTG (Banco BTG Pactual), me parece que ele foi um banqueiro. Mas eu não conheço a pessoa dele, não conheço o caminho que ele quer tomar para a economia nacional e também não sei o que o presidente Bolsonaro pensa, porque eu sei que muitos militares não estão satisfeitos com essa questão do entreguismo.

O senhor acha que isso evidencia uma insegurança ou fraqueza do Governo?

Eu tive muito problema com o governo passado. O Governo do PT, do Lula, foi o maior esquema de corrupção já visto no mundo. E a gente já sabia disso, quem comandava esse jogo todo por trás era o (Emílio) Odebrecht. Desde a década de 70, meu pai e minha família vem denunciando esse esquema. Aliás, esse esquema não começou com o Lula, depois da saída do Geisel e com o começo dos governos civis, o Odebrecht vem comandando o esquema todo, com o Collor (Fernando Collor de Mello, (José) Sarney, Itamar Franco… todos os presidentes que passaram sempre tiveram um patrão chamado Emílio Odebrecht.

O ápice desse “esquema”  foi no Governo Lula?

Foi. Porque quando o Lula entrou eles já eram parceiros, sócios antigos. Desde quando era sindicalista ele já tinha uma relação promíscua e foi feito um acordo político do Emílio Odebrecht de que bancaria sozinho a campanha do Lula e, em troca, a Odebrecht ficaria com o monopólio da indústria petroquímica. E foi numa mesa de cachaça que se resolveu essa questão e o presidente Lula assumiu e cumpriu rigorosamente o pacto do diabo, como disse Palocci (ex-ministro da Fazenda do governo Lula, Antônio Palocci). O que mais me surpreende é ver esse empresário (Emílio Odebrecht) dando declarações ao Ministério Público lá de Curitiba, sendo réu confesso, dizendo que o esquema de corrupção existe há 30 anos, que ele está no jogo, que ele comandou o jogo e o homem está solto. Com os desvios e tudo o que ele fez, criou um prejuízo para a nação brasileira que nunca se viu nada igual.

Como é a relação da Petrobrás com a indústria petroquímica privada?

Há contratos de obrigação do Governo com a indústria privada, no Rio Grande do Sul o plano financeiro era 40% de capital próprio e 60%  seria financiado pelo BNDES. Mas o BNDES se recusou a conceder o financiamento e nós fomos buscar esse financiamento no International Finance Corporation (IFC), uma divisão do Banco Mundial. A Petroquímica Triunfo não foi vendida, ela foi roubada. A Petrobrás não tinha poder de entrar em uma assembleia do jeito que entrou e, na raça, passar a Petroquímica Triunfo por um valor vil de R$ 117 milhões, que não é nada considerando que só em caixa ela tinha R$ 130, 140 milhões, e passar de graça para a Odebrecht, para a Braskem.

Gostaria que explicasse melhor esse “roubo”…

Bom, as pessoas que estão envolvidas nesta questão, os funcionários públicos da Petrobrás que fizeram essa maracutaia estão todos presos e nas minhas idas a Petrobras e ao Governo (Brasília), na época do Lula, você não pode imaginar a forma de tratamento em relação ao empresário sério privado como eu. Não imagina como esses funcionários ameaçavam, maltratavam, perseguiam, botava processo… Eu sou o cara mais perseguido do Brasil até hoje. Até hoje tem uma estrutura de poder que está me perseguindo nos tribunais.

E o que foi feito para retaliar isso?

Eu tenho vários processos para anular a assembleia da Petroquímica Triunfo com laudo da Polícia Federal dizendo que foi uma maracutaia e está há 10 anos no Rio Grande do Sul e não se julga na 1ª Instância. Que força é essa? Quem está por trás disso, se não for a Odebrecht? Eu tenho um sócio retirante, irmão do meu pai e um traidor, que tinha 7% da empresa, que conseguiu no Tribunal de Justiça de São Paulo uma sentença de R$ 500 milhões. Ele tinha 7% da Petroplastic, que tinha 15% do capital total da Triunfo, e nós tínhamos os 93%. E agora ele tem um título de R$ 500 milhões. Um laudo feito por um perito judicial corrupto que avaliou a Triunfo em R$ 7 bilhões. Esse meu tio tem a maior fábrica de plástico do Brasil e é o maior cliente da Braskem, o maior parceiro da Odebrecht para me arrebentar. 

O senhor fala em roubo, mas houve uma oferta de compra. Foi um oferecido um valor pela Triunfo?

Lá no rio Grande do Sul nós estávamos com uma execução de 51% quando começou o não cumprimento do Acordo de Acionistas pela Petrobrás, começamos a exigir o cumprimento e a Petrobrás sempre se negava e fomos obrigados a entrar com uma ação no  Poder Judiciário gaúcho, em 1985. E, em 1992, nós assumimos o controle da companhia. Aí o Odebrecht afastou a Petrobrás do negócio e decidiu entrar nessa briga, e conseguiu reverter tudo no Rio Grande do Sul, conseguiu fazer do meu pai, um homem sério, um corruptor de juiz. 

O senhor acusa vorazmente a família Odebrecht. Por que?

Eles fizeram do meu pai um corruptor de juiz, inventaram essa história que até hoje eu não engulo, por isso que estou indo à forra com eles. Por isso que sou responsável pelas acusações, denúncias e tudo mais contra o Grupo Odebrecht. Eu já venho fazendo isso há mais de 30 anos. Meu pai morreu de câncer em uma situação muito difícil, lesado, roubado, fizeram o diabo com o homem e foi o Poder Judiciário que fez isso com ele, que está com a Odebrecht em cima. Eles reverteram uma questão que já estava liquidada, ganha e, de repente, depois de anos a Petroquímica Triunfo é passada, no governo do Lula, para a Odebrecht de graça. Esse cara (Emílio Odebrecht) é um louco, um maníaco e está pagando o preço de ter feito isso não só comigo, mas com o Brasil inteiro. Eu tenho tido muitas dificuldades na minha vida, estou sendo sabotado, encurralado. Porque eles não querem me deixar solto, porque se eu ficar solto e capitalizado eu derrubo o resto.

E o que estão fazendo contra o senhor?

Por exemplo, meu pai deixou um testamento – além de ser sócio dele na empresa há mais de 50 anos e ser fundador dessa indústria petroquímica – num inventário, num espólio do Boris, do qual sou herdeiro e sócio das empresas, peguei um juiz que não me deixa assumir a posição de empresário, não me deixa assumir o que meu pai me deixou, ele cassou os meus direitos.

Alegando o que?

Eu nem sei o que ele alegou. Porque você que quando uma pessoa falece e deixa um testamento, ela já deixa prevista sua última vontade exatamente para que se houver confusão entre os herdeiros já está definida a sucessão pelo decujo. Mas o juiz não respeita. Pior, o juiz está me roubando. Eu fiz uma declaração na rede social falando que o juiz está me roubando, ele pegou meu patrimônio está vendendo por esquemas espúrios, alugando imóveis valiosos, que valem R$ 300, 400, 500 mil por R$ 10 mil por mês.Está explorando em nome de laranjas os imóveis. Já tirei fotografia de todos e vou expor tudo. E esse juiz, que vem me peitando e que disse que vai entrar com processo penal contra mim – aliás, estou esperando esse processo – vou denunciá-lo no Conselho Nacional de Justiça, corregedoria, vou fazer o maior escândalo. Quem é esse senhor? Ele não é dono do meu patrimônio, tem que respeitar a lei. Estou sendo sacrificado. No Rio Grande do Sul, no processo da Triunfo não se resolve nada, tem processo do senhor Salomão – o sócio retirante, que roubou R$ 150 milhões e quer me roubar mais R$ 350 milhões.

O senhor não recebeu nada pela transação da Triunfo para a Braskem?

Na incorporação, que foi a expropriação recebemos R$ 15 milhões de ações da Braskem, substituindo a penhora. Esse senhor tem direito, no máximo, a R$ 4 milhões e me tomou mais de R$ 150 milhões. Eu estou assustado para te falar com a verdade, muito assustado com o que está acontecendo no país. Tem que fazer CPI, tem que fazer uma devassa.

E qual a atual situação atual da Petroquímica Triunfo?

Estou lutando para que ela volte, aguardando que se decida no Rio Grande do Sul esse processo.

O senhor não tem controle algum sobre a empresa?

Em 2009 eles fizeram a incorporação, pegaram as ações originárias de controle, 100%, tanto do que a Petrobrás tinha na Petroquímica Triunfo, passaram a Triunfo para a Braskem e me deram ações referenciais que não valem nada, numa proporção de troca na qual ele avaliou a Braskem com um valor gigante e a Petroquímica Triunfo a nada. Quer dizer, eu fiquei pobre de um dia para o outro. Eu que era uma dos homens mais importantes e capitalistas desse país, de um dia para o outro meu patrimônio sumiu. E estou na Justiça tentando reaver tudo, não o dinheiro, mas a empresa. Porque o acordo de acionistas nosso não pode ser descumprido, tem cláusulas que se algum acionista descumprir, você entra com a execução específica do acordo de acionistas e pega de volta a empresa. E é o que eu estou tentando fazer. 

Inclusive a Polícia Federal disse que houve um prejuízo de quase R$ 200 milhões nessa transação…

O laudo da Polícia Federal mostra que, no mínimo, houve um prejuízo de R$ 191 milhões, em 2008, a Petrobrás, e R$ 70, 80 milhões a minha família, minha empresa. Na realidade foi muito mais, porque a Petroquímica Triunfo tinha o direito de 33% do Copesul e quando o Collor fez a privatização, o Emílio Odebrecht já tinha acertado de ficar com a Copesul e não respeitarem o acordo de acionistas existente e passou na privatização com moeda podre para a Odebrecht e o Grupo Ipiranga junto. Os dois se juntaram e deram um passa moleque na Petroquímica Triunfo. 

 O senhor acredita que tudo isso que está acontecendo é pessoal?

Se tornou pessoal. O meu irmão foi falar com o presidente Lula, que disse que o Poder Judiciário não vale nada, que o que vale é a relação entre as pessoas. Um mês depois que meu irmão esteve lá, ele passou a Triunfo para o Odebrecht, para a Braskem. Ainda acredito, tenho fé de que esse governo vai resolver esse caso da Petroquímica Triunfo, me devolver essa empresa. 

O senhor pensa em morar fora do Brasil?

Olha, se eu tivesse condições eu iria. Aqui sou muito perseguido e já tive até ameaça de morte. Meus amigos até falam para eu procurar outra coisa para fazer, mas isso é o que faço desde os 13, 14 anos. Não sei fazer outra coisa. Só se eu virar Uber, tem tanto engenheiro virando Uber, não é?

Mas o senhor não é uma pessoa pobre.

Graças a Deus meu pai deixou um patrimônio, fora a petroquímica, bastante razoável. Mas os meus imóveis estão dominados por um juiz que passou a mão em tudo, ele que está administrando minhas coisas. Tudo que é meu está preso, bloqueado.

E sua renda renda vem de onde?

Essa questão da renda… (grande pausa) Estou passando um aperto muito grande, todos os meus imóveis estão bloqueados, todos os bens que poderiam me dar uma renda. Estou sem renda mesmo. Inclusive minha mãe que tem 80 anos está sem remédios… 

Então o senhor não tem dinheiro nenhum?

Meus filhos me ajudam, minha mulher me ajuda e, às vezes, alugamos nossa casa – que é muito bonita – para alguns eventos e festas. Mas agora vou conseguir vender um imóvel bastante importante para me capitalizar e continuar a briga da Pertroquímica Triunfo.

O que deve custar muito caro…

Ah, você não pode imaginar. Já gastei mais de R$ 100 milhões com advogados desde 1985 brigando pela Triunfo

O QUE DIZEM OS CITADOS:

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

A assessoria do ex-presidente Lula afirmou: “O senhor Caio Gorentzvaig repete essa história irreal ao longo de anos, tanto para a imprensa quanto para a justiça. O assunto ao qual ele se refere já foi investigado e tratado várias vezes na justiça que nunca deu autenticidade as falas do senhor Gorentzvaig. O ex-presidente foi investigado ao longo de anos, de todas as formas possíveis e tudo que conseguiram inventar contra ele foram histórias fabricadas sem provas em delações premiadas. Não se achou uma conta ou um ato de desvio dele no exercício da presidência. A delação de Palocci citada foi recusada pelo MInistério Público que a chamou de delação ‘fim da picada’.”

Emílio Odebrecht 

Assessoria disse que não comentará as acusações.

Odebrecht

Assessoria disse que não comentará as acusações.




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