Nos últimos dias, passageiros que desembarcam no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, têm relatado um cenário incomum para um dos aeroportos mais pressionados da Europa: filas quase inexistentes no controlo de fronteiras. O aparente alívio, no entanto, não é fruto de uma solução definitiva, mas sim da suspensão temporária do novo sistema eletrônico de controlo migratório, medida adotada pelo governo português após semanas de caos operacional.
O sistema em questão é o Entry/Exit System (EES), uma plataforma eletrônica da União Europeia que substitui o tradicional carimbo no passaporte por um registo digital com dados biométricos, como fotografia e impressões digitais — de passageiros oriundos de países fora do Espaço Schengen. A proposta, alinhada a padrões internacionais de segurança, acabou esbarrando na realidade operacional do principal aeroporto português.
Desde a entrada em funcionamento do EES, ainda em fase experimental, o aeroporto enfrentou esperas superiores a seis e até oito horas, levando a perda de conexões, desgaste físico dos viajantes e críticas severas ao modelo de implementação. Diante da pressão pública e de alertas internos, o governo decidiu suspender o sistema por um período inicial de três meses, retomando temporariamente o controlo manual de passaportes.
Segundo a associação sindical da PSP, a atual fluidez no desembarque só é possível porque o sistema eletrônico está desligado. Para os representantes da polícia, a tecnologia foi implementada sem reforço adequado de efetivo, infraestrutura e treinamento, tornando inviável sua operação em horários de pico, especialmente com o crescimento constante do fluxo turístico em Portugal.
A suspensão expõe um problema estrutural mais amplo: Lisboa opera no limite da sua capacidade aeroportuária. Embora o EES seja visto como inevitável, já que faz parte da estratégia europeia de segurança e controlo migratório, especialistas alertam que sua reativação, sem investimentos robustos em tecnologia, recursos humanos e reorganização dos fluxos, pode provocar um novo colapso.
Enquanto isso, o governo mobilizou reforços operacionais e estuda ajustes no modelo antes de uma eventual reativação do sistema. O desafio é encontrar equilíbrio entre segurança, eficiência e experiência do passageiro, num aeroporto que funciona como principal porta de entrada de Portugal e hub estratégico para conexões entre Europa, América do Sul e África.
O cenário atual, embora positivo para quem desembarca, é apenas um alívio temporário. A normalização definitiva do controlo de fronteiras em Lisboa dependerá de decisões estruturais e não apenas tecnológicas, para acompanhar a dimensão do país no mapa global do turismo e da mobilidade internacional.
Imagens: Expresso

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